tenho sorte

Durmo com a mão caída pra fora da cama, não encosta no chão, nem nada assim. O cotovelo continua na cama, fica só aquele meio braço com uma mão meio fechada, meio aberta pro lado de fora. Acordo com ela sendo empurrada com força pela cabecinha do Muriel que, gosto de pensar, não pede carinho, me dá carinho. Ele empurra com tanta vontade que, às vezes, meus dedos chegam a encostar nos pequenos dentinhos afiados porque a força fez o lábio levantar.

Enquanto isso, a Daniela permanece paradinha deitada, fingindo que nada acontece para ver se eu não me mexo. Ela deita atrás dos meus joelhos ou com a cabecinha encostada no meu cotovelo, ou embaixo da minha cabeça. Quando ela quer que eu acorde, dá uma mordidinha de leve na pontinha do meu nariz. Acho que, para ela, eu e o Muriel somos quase iguais. Ela nos trata igualzinho.

A vida da minha casa está no Muriel, na Daniela, no sol que entra pela janela e nas plantinhas todas que estão por ali. O boldo tá cinza do cimento da obra do prédio, enquanto as flores laranjas continuam bem laranjas e florescendo.

Eu fico olhando eles correndo atrás de qualquer objeto que caia no chão e batendo nele como se as patas fossem bastões de hóquei, sei lá se o nome é bastão, mas eles batem de leve, de um lado e de outro, sem dobrar os joelhos e vão conduzindo de uma maneira que parece que a tampinha do vinho tem vida própria.

Eles ficam correndo atrás da luz que passa pelo vitral pendurado na janela. Ele vira e a luz dá voltas pelo meu quarto. A Dani dá menos bola, mas o Muriel segue com os olhos e com o corpo e me olha como se pedisse ajuda com os olhinhos vesgos. Eu fico aqui escrevendo e pensando se ele tá feliz ou se eu causo uma sensação de frustração nele por ter colocado algo nessa janela que ele nunca vai conseguir pegar. Acho que ele sabe que é só luz. Ele sabe mais que a gente. Todos os dias ele sabe que já passa das seis e que eu tenho que levantar da cama.

Será que a gente também caminha rebolativa e dá pulhinhos quando vê algo divertido? Já me disseram que o Muriel parece comigo no jeitinho. Gosto de pensar que a Daniela também tem muito em comum conosco. Não sei porque comecei a escrever isso, mas já pensei muito que eles são uma boa metáfora pra muitas coisas que acontecem na minha vida, ajuda a entender quando faço relações. Mas eles não são (só) isso, eles são uma relação, bem importante inclusive. Assim como a Vilma era quando eu era pequena e chorava e ela virava a cabecinha de lado dobrando as orelhas. Ou quando o Quincas corria sorrindo daquele jeito que parece que nenhum cachorro sorri. Ou Lili caminhava pelo pátio de “mãos dadas comigo”, era o jeito que eu entendia aquela baita boca carregando a minha mãozinha dentro. Ou quando eu lembrei da Rosinha balançando o rabo e não quis mais comer carne. Cada um é um e eu tenho sorte. Muita por sinal.

15 de julho de 2017

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