O vô foi embora

Quando eu era criança, o vô sempre queria que eu lesse nos eventos da família. Lembro de ficar no topo dos dois degraus da porta da cozinha lendo para todo mundo logo abaixo. Eu nem chegava a ficar mais alta que as pessoas. Confesso que não lembro se lia algo pronto ou se escrevia. Ou se isso variava. Quando bem pequena, gostava. Depois, não; até que ele entendeu que era para parar e paramos.

Eu era pequena, eu sou pequena ainda se pensarmos em estatura e a referência for o vô. O vô sempre foi um gigante. Com quase meio metro a mais do que tenho hoje e com uma circunferência quatro vezes maior que a minha. O gigante. Uma vez eu disse para ele que gostava de ser pequena, assim, sempre poderia abraçar virando a cabeça de lado e recostando-a no peito do outro, no caso, dele. Se o melhor lugar para se estar é em um abraço, o melhor lugar em um abraço para se estar é nesse, dentro do peito alheio.

Uma vez o vô – quando ainda nem pensava que seria chamado por esse vocativo – guardou laranjas no bolso das calças enquanto ganhava carona na caçamba de um caminhão. Ficaram tão apertadas ali dentro que ele precisou cortar as laranjas para tirar. Outra vez, depois de se render ao amor que sentia – e nunca deixou de sentir – pela minha vó, ele foi até o porão da casa em Linha Alegre para contar para o seu pai que não queria mais estudar e tornar-se padre, mas, sim, casar com a minha vó. Foi assim ou algo muito parecido. O jovem-vô contou num momento em que achou que seu pai estava mais calmo, assim seria tudo mais tranquilo. Vôs e gigantes sentem medo. Acho que foi tudo bem, afinal estamos aqui hoje, eu sendo pequena, a vó sendo amada, o vô sendo amado. Ô decisão acertada.

Eu sou neta do vô e nunca aprendi a jogar canastra. Pasmem. Passava quase dois meses na mesma casa que ele e nunca aprendi. Mãos pequenas eu dizia. Como segurar tantas cartas. Eu arrasava no mexe-mexe, nem roubando ele ganhava. Ele roubava, acho constrangedor admitir. O vô cogitou ser padre, passou a vida na Igreja. Eu nem católica sou. Não sou gigante, não jogo canastra, não creio no mesmo que ele. Eu gosto de contestar. Talvez ambos sejamos teimosos, acho bom eu repensar isso também. Gerações diferentes. Mas somos ligados por uma pessoa que eu chamo de pai. Sempre fomos ligados. Ele sabe que amo ele.

A vida toda eu sempre pensei que no dia que eu morresse, meu outro vô, que não conheci, iria me buscar seja lá onde for. Ainda acho que isso vai acontecer. Tenho essa certeza. Mas sempre enxerguei uma mistura dos rostos dos dois nessa imagem, acho que eles vão vir juntos. Espero que alguém que tu ame muito tenha te buscado, vô, te passando sentimentos bons. Eu sinto agora que tu está sorrindo.

Eu vejo muitos defeitos no meu vô. Muitos mesmo. Olha o egocentrismo de ter uma horta cujos canteiros formam as iniciais do teu nome – meu pai interviu aqui dizendo que a ideia não foi do vô, foi dele. Dois exibidos com as mesmas iniciais. Espero continuar percebendo todos os defeitos, afinal, gigantes ainda são humanos e precisam os ter para continuarem sendo. Cada um lida com os seus defeitos e com os defeitos dos outros de maneiras diferentes. Isso também é ser humano. Mas tem coisas que não mudam, como minha imaginação pensando nas calças melecadas de laranja. Sempre sorrio.

Vai feliz, gigante.

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