Eu tô presa, eu morro

Eu olhava para a Júlia e, chorando, dizia para ela que eu estava e ainda estou presa aqui dentro. Presa dentro desse corpo. Não esperava que ela me respondesse algo útil, mas o desespero chegou e é com a Júlia que eu lido com as coisas que não parecem tranquilas de lidar.

Eu estou presa.

O problema todo está em estar presa dentro de algo que é regido por si próprio e por mais um bando de homens velhos nojentos. O corpo é meu, mas não é coordenado só por mim e pela natureza. Velhos nojentos.

Eu sempre tive esse teto de que não sou o corpo, disse eu pra Júlia. Sempre tive mesmo, já escrevi sobre modificá-lo e, cada vez mais, mexo nele. Entrei em um processo, não tão recentemente assim, de querer conhecê-lo melhor, de deixar mais algumas imposições de lado e ver se sinto esse corpo se aproximar um pouco mais de mim.

O corpo da mulher afeta profundamente as emoções dela. O anticoncepcional vai diretamente lá. Há doze anos eu tenho um despertador que toca todas as noites. Tome todos os dias da tua vida um comprimidinho pequeno que vem em uma embalagem rosinha e também pequena  — já que ele vai ter que estar sempre contigo —  e perceba teu corpo inchar, tua pele mudar, teus cabelos ficarem diferentes, mas, principalmente, as lágrimas brotarem do nada na tua cara durante dez dias seguidas por uma impaciência inexplicável e dores muito fortes. Troque a cartelinha por outra em que o alumínio é amarelo e perceba-se inchada de novo, mas com dor nos seios, dores de cabeça como agulhadas e uma raiva que te faria bater em qualquer pessoa naqueles dez dias antes da menstruação. Sem falar na tua líbido que tu até esqueceu que existia. E, claro, esqueça a trombose que vovó já teve e que tu será a próxima.

É melhor te sujeitar a esse comprimidinho bosta do que confiar que teu parceiro colocou a camisinha direito, não é mesmo? É melhor fazer isso que pensar em outros métodos. Mas é melhor mesmo, mesmo, fazer isso, já que, se tu for estuprada — o que tem grandes chances de acontecer visto que a cada onze, onze, minutos uma mulher é estuprada no Brasil — talvez tu nem consiga abortar legalmente e de forma segura, porque aqueles homens velhos regem o corpo que te prende. Além do estupro, tu deveria gerar a criança, sabe-se lá como explicar pra ela quem é o pai e, quiçá, dividir a guarda com um estuprador. Não, a gente aborta ilegalmente e corre o risco de matar esse corpo que é nosso.

Isso não importa, já que se tu correr risco de vida devido à gravidez, tu também teria que manter a gestação. Quem escolhe? Não, não sou eu. Parece que o corpo não é meu. Mas é. Quem quer decidir por mim não é nem esse tal de deus, mas esses caras que querem falar por ele. O PL 181 ainda passará por outras instâncias e esperamos que não seja aprovado. Mas homens que não moram comigo dentro desse corpo aqui decidirem isso já é absurdo.

O anticoncepcional não está diretamente ligado ao estupro. Mas está diretamente ligado à doutrinação pela qual nosso corpo feminino passa. Vivemos imposições o tempo inteiro. A atenção a uma possível maternidade não passa por nossas escolhas e responsabilidades se não lutarmos por ela — e talvez nem lutando passe. As decisões vêm prontas. Para me tornar estéril permanentemente, para dizer que meu corpo não vai gerar outras vidas, eu preciso estar de acordo com uma lei que diz que devo ter mais de 25 anos, dois filhos e,em caso de convivência conjugal, consentimento do marido. Olha aí mais um homem opinando. Meu corpo dói e eu sinto a dor aqui dentro.

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