Churrasco-de-domingo-em-família não é amor

Eu ainda como ovos e leite. Ovos e leite: justamente aquilo que é da mulher, da fêmea. Ovos e leite. Essa incoerência me dói um pouco a cada dia. Essa sou eu explorando outros animais fêmeas como eu. Ao mesmo tempo em que dói, eu me reconforto pensando que cada um tem seu tempo e que eu preciso respeitar o meu. Preciso, de verdade, me respeitar também.  Respeitar o meu tempo significa não sucumbir à pressão, viver escolhas sem sofrimento. Respeitar o meu tempo me faz tolerar outras escolhas e outras incoerências de outras pessoas porque elas têm seu tempo e suas dores e não vão sucumbir também.

Me disseram uma vez, quando doíam as incoerências, que eu não devia procurar justificativas, que eu deveria apenas sentir e não me forçar a ir contra os meus sentimentos, que eu tinha só medo. Melhor coisa que alguém já me disse. Eu já tinha as justificativas, eu já tinha o sentimento. Já era o meu tempo.

Depois de tantas razões possíveis, mais lógicas ou mais subjetivas, eu percebi que também sou um pedaço de carne a ser comido e a ter dono sob os olhos da sociedade, mas não sob os meus. Eu percebi que tanto eu quanto a carne na mesa éramos chamadas de vacas. A menos que eu me comportasse;  a menos que ela já estivesse morta e retalhada em outra forma. A gente tem muito em comum, muito além da dominação. Hoje me assusta alguém que não veja o ser humano como animal. Mas foi a percepção da dominação compartilhada que me gerou empatia e me fez sentir uma dor absurda. Já era o meu tempo.

Meu tempo de colocar despretensiosamente uma garfada de carne de panela na boca e ter que cuspir de volta e querer chorar. Meu tempo de olhar para o Ferdinando tatuado na minha pele e pensar que diferença tem ele, meu personagem preferido; a rosinha, vaca que eu amava quando criança; e a vaca na mesa e o peixe na mesa e o porco na mesa e o frango na mesa.

E que diferença tem o peixe no mar, a vaca no pasto a galinha no pátio e o presunto no sanduíche?

Quanto mais o tempo passa, menos o referencial é ausente para mim. Não consigo olhar a carne e não enxergar o animal. Não consigo evitar o nó na garganta nem o embrulho no estômago. Sou puta incoerente porque ainda como ovos e leite. Vai chegar meu tempo.

Cada um percebe o que se deixa perceber e é sensível àquilo que lhe toca por alguma razão que talvez não saibamos explicar. Cada um luta por alguma coisa e se indigna por alguma coisa, mas me dói olhar para uma família fazendo churrasco e achando bonito aquele monte de homem exibindo alguma forma de poder que eles têm em espetar animais provavelmente fêmeas em um espeto enquanto as mulheres que sempre sempre todo dia alimentam a família toda hoje fazem só uma saladinha para os homens no domingo se mostrarem fortes dando carne para todo mundo que delícia. Nunca vi tanta dor em um evento só. Existe, mas eu nunca estive nos outros e não pretendo estar. Churrasco-de-domingo-em-família não é amor, é dominação do patriarcado. Carnivorismo é violência. Nunca gostei de abordagens assim. Elas não são boas para mostrar o vegetarianismo. Mas é violência. E cada um tem seu tempo, suas dores, suas incoerências. Dói todos os dias, mas dói menos porque não aceitei.

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